segunda-feira, 20 de junho de 2011

Jeová

Jeová foi e ainda é a personificação mais misteriosa de Deus até hoje ensaiada pela humanidade; no entanto, ele iniciou a carreira como monarca guerreiro do povo a que chamamos de Israel.

A despeito de encontrarmos Jeová cedo ou tarde na vida, confrontamos uma personalidade exuberante e um caráter tão complexo que decifrá-lo é impossível.

Refiro-me apenas ao Jeová da Bíblia Hebraica, e não ao Deus daquela obra inteiramente revista, a Bíblia cristã, com o seu Antigo Testamento e gratificante Novo Testamento.

O historicismo, seja à antiga ou renovado, parece ser incapaz de confrontar a incompatibilidade total existente entre Jeová e Jesus Cristo.

Jack Miles, o Boswell de Jeová, no livro - God: A Biography (Deus: uma biografia), - retrata um Jeová cujo ponto de partida é uma espécie de falta de autoconhecimento mesclada com poder total e alto grau de narcisismo.

Após diversos desastres divinos, conclui Miles, perde o interesse (inclusive de si mesmo).

Miles, nos faz lembrar, com correção, que Jeová, em 2 Samuel, promete a Davi que Salomão há de encontrar um segundo pai no Senhor, adoção que abre o precedente para Jesus afirmar que é filho de Deus.

O Jesus histórico, evidentemente, insistia tanto em sua autoridade para falar por Deus quanto em sua íntima relação com o abba (pai), e, nesse particular, vejo poucas diferenças entre ele e seus precursores, entre os profetas carismáticos de Israel.

A diferença surgiu com o advento do Deus teológico, Jesus Cristo, com o qual a linha da tradição é, efetivamente, rompida.

Jeová, a não ser pelas questões de poder, diverge dos deuses de Canaã, principalmente, ao transcender a sexualidade e a morte.

O Novo Testamento se fundamenta na violência sagrada da Crucificação e do suposto desenlace, em que morre em conseqüência de tortura se transforma em ressurgimento dentre os mortos.

Trata-se de um padrão bastante diverso da turbulência misteriosa observada em Jeová, que estabelece Alianças com sua gente, mas que tem liberdade total para delas se evadir, e que adverte Moisés, no Sinai, que os anciãos privilegiados por participar com ele de um repasto não devem se aproximar demais.

Realisticamente, Jeová mostra-se ciente do seu temperamento ao estilo Rei Lear, propenso a súbitos acessos de fúria.

“Jesus”, (...), significa, principalmente, Jesus o Cristo, um Deus teológico.

Jeová, em sua primeira e definitiva carreira, não é, absolutamente, um Deus teológico, mas humano, muito humano, e se comporta de modo bastante desagradável.

O cristianismo transforma Jesus de Nazaré, figura histórica sobre a qual dispomos de apenas alguns fatos, em uma multiplicidade politeísta que substitui o ameaçador e misterioso Jeová por um Deus Pai muito diferente, cujo Filho é o Cristo, ou Messias ressuscitado.

Jeová, que, desde a destruição do Templo, sentiu-se como uma espécie de sem-teto, pareceu estar em exílio voluntário, em algum ponto do espaço sideral, até regressar a Israel, em 1948.

No ano de 2004, (...), só podemos esperar que Jeová não volte a exigir a reconstrução do Templo, pois a mesquita Al Aksa foi erigida na área que correspondia ao Templo, e já temos guerras religiosas suficientes, podendo prescindir de uma catástrofe final.

Fanáticos, em Jerusalém e espalhados pelo fundamentalismo protestante norte-americano, estão sempre a conspirar a destruição da mesquita inconveniente, e bezerros de puro sangue são criados nos Estados Unidos, como oferendas potencialmente capazes de atrair Jeová de volta às imediações do Templo.

Menciono essa loucura tão bem atestada apenas para confessar uma constrangedora diminuição do meu ceticismo diante de Jeová.

Duvidar-lhe a existência perene é exercício racional, mas ele não é uma entidade estática, ao contrário do Deus Pai cristão.

O assombroso dinamismo de Jeová faz com que até suas ausências impliquem supostas perturbações.

Jeová, seja lá como for chamado, inclusive de Alá, não é a divindade universal de um planeta que se encontra conectado por meio da informação instantânea; (...), mas o mundo continua a se afogar na onda sangrenta das escrituras, lidas ou não por ele.

...a vida é por demais importante para ser levada a sério. (Oscar Wilde).

Jeová, lamento acrescentar, é por demais importante para ser ironizado.

Jeová, embora evidente apenas como personagem literário, reduziu-nos à condição de personagens literários menores, elencos de coadjuvantes do protagonista dos protagonistas, em um universo mortífero.

Jeová zomba da nossa mortalidade no Livro de Jó; Jeová santifica a tirania da natureza diante das mulheres e dos homens: eis a sapiência cruel da história de Jó.

“O islamismo [...] apresenta todas as características de um grande culto da morte” (Sam Harris)

Harris cita pesquisas de opinião realizadas em países muçulmanos que refutam, flagrantemente, nossos chavões de que terroristas suicidas não contam com o apoio da maioria dos muçulmanos: é certo que contam.

Se Jeová é senhor da guerra, Alá é terrorista suicida.

Jeová, presente e ausente, tem mais a ver com o fim da confiança do que com o fim da fé.

Será que ele ainda poderá firmar conosco uma aliança que terá condições de cumprir?

Cadernos de Frye

Considero a maior parte dos Evangelhos leitura sumamente desagradável.

As parábolas misteriosas, com ameaças ocultas, a ênfase depositada por Cristo em si mesmo, em sua singularidade, em uma atitude que pode ser caracterizada como “ou eu, ou então...”, a demonstração de milagres como façanhas irrefutáveis e a desilusão prevalente quanto ao fim do mundo ---- são questões a serem explicadas pela perspicácia intelectual, e o fato de que elas existem sempre me parece fazer parte do delicado tecido da racionalização.

A Igreja cristã, com todas as suas manias, começava a se formar quando os Evangelhos foram escritos, e é possível ver a atuação da Igreja, abrindo caminhos e viabilizando o seqüestro do cristianismo por uma sociedade deformada e neurótica.

Pergunto-me por quanto tempo, e até onde, é possível se esquivar ou resistir à sugestão de que a estruturação editorial das Escrituras é, fundamentalmente, um processo desonesto.

Os Evangelhos nos apresentam um Jesus tão mitológico quanto Átis, Adônis, Osíris ou qualquer outra divindade que morre e renasce.

Um Messias que é Deus Encarnado e que morre na Cruz pelo Perdão de todo pecado humano é irreconciliável com a Bíblia hebraica.